sábado, 6 de fevereiro de 2010

A temível cuca...

Quem é a cuca?
 
Não tenho bem a certeza.

Aparentemente a cuca é um “bicho mau” que não vai lá muito à bola connosco.
Digo aparentemente porque eu nunca vi nenhuma. Sei o nome porque lembro-me de a minha mãe me avisar sobre ela quando eu era miúdo.

“Cuidado com a cuca” dizia ela misteriosamente...e eu, arregalava bem os olhos e ficava muito, muito quietinho, à espreita, na escuridão do meu quarto...

Imagino que a cuca seja muito requisitada por mães de todo o mundo e tenha muitos afazeres porque ela nunca apareceu.

A cuca, o homem do saco e outros malfeitores que tais são uns aldrabões do caraças.

Estranho mesmo é o facto de que, mesmo nunca aparecendo no local marcado, nós ficamos sempre com a sensação que eles lá estiveram.

É uma espécie de “síndrome do pai-natal” só que em mau porque o pai natal também nunca o cheguei a fisgar mas pelo menos ele tinha o bom senso de me comprar com carrinhos de corrida e pijamas.

Ou seja, o homem não tinha tempo de ficar para o pequeno-almoço mas ao menos dava sinal de vida e lá pedia “desculpa” à maneira dele.

A cuca não.

Nem um par de meias daquelas das raquetes nem nada.

A cuca é uma mal-educada.

E pelos vistos está falida.

Depois de ter chegado a estas conclusões chocantes começou a custar-me continuar a ter medo de alguém que provavelmente estaria a marcar lugar na sopa dos pobres e, enquanto se babava pelo canto da boca, gritava com a cozinheira porque queria antes lagosta com champinhons em vez de sola de sapato grelhada à moda de Alcabideche.

Bem...resumindo e concluindo.

Não é boa ideia termos consideração por este desnaturado sem palavra.

Desde muito novos que somos coagidos a dar crédito a coisas que não existem ou que praticamente nunca chegam a acontecer. Desde muito novos que somos assustados com monstros de todos os tamanhos e feitios para todos os gostos e desgostos. Desde muito novos que somos levados a crer que coisas perfeitamente inócuas e simples podem dar cabo da vida de uma pessoa. Desde muito novos que nos passam a ideia de que temos de ter medo da vida se queremos viver.

Somos periódica e sucessivamente assustados com “terríveis doenças” que vão erradicar a espécie humana de um dia para o outro. Quando nada acontece limitamo-nos a inventar outra “terrível doença” qualquer.

Desde que ganhámos capacidade para argumentar que lançamos datas arbitrária do fim do mundo. Vendemos as nossas casas e gritamos a plenos pulmões “arrependam-se enquanto é tempo!”. Quando nada acontece limitamo-nos a comprar outra casa e a inventar outra data qualquer para o juízo final.

Quando a publicidade não está a insultar as pessoas, 

 
está a mostrar todas as razões possíveis e imaginárias que elas devem temer se não comprarem imediatamente o produto deles. "Compre o nosso produto senão acontece o carmo e a trindade na sua vida!" Quando nada acontece limitam-se a arranjar outras razões quaisqueres.
  
Fazemos e dizemos as coisas mais estapafúrdias para justificarmos o nosso sentimento de medo mas devíamos antes estar a fazer e a dizer as coisas mais estapafúrdias para justificarmos o nosso sentimento de amor, de alegria, de bem-estar, de gratidão.

Não temos que ter medo da vida.

Se não reenviares aquele “e-mail corrente” nada de mal te vai acontecer. Não vais cair das escadas e partir o perónio e a tíbia em 29 sítios diferentes nem a tua avó vai ser engolida por um porta-chaves com 7 cabeças que veio do além.

Se decidires usar a marca de pastilhas X em vez da marca Y na tua máquina de lavar roupa, a tua cozinha não vai ficar inundada até ao tecto e não vai ser preciso contratar 52 profissionais que cheguem à conclusão que a casa vai ter que ser demolida e construída de raiz.

Faço-me entender?...

É que, da mesma forma, se fores falar com aquela rapariga que te atrai e disseres “olá” com um sorriso simpático na cara, ela não vai desancar-te e dar-te um enxerto de porrada com uma barra de alumínio que trazia escondida na mala, nem lançar-te uma granada de gás pimenta enquanto grita por socorro e liga o 112.

Provavelmente vai ser simpática de volta...não será?

Se pensares bem no assunto, sem o medo a toldar-te o raciocínio, vais chegar a esta mesma conclusão.

Logo,

Se tens medo de como ela vai reagir estás a ter medo da cuca para justificar a tua passividade e não a avaliar a situação de forma realista.

Como já viste, a cuca não vale dinheiro branco. Ela raramente aparece no sítio combinado. Ela está demasiado ocupada a tentar cortar um pedaço de borracha queimada com um talher.

Não deixes que um pobre monstro que precisa de usar a arrastadeira de 10 em 10m te impeça de ser feliz.

Não deixes que a ideia que te querem impingir do que pode vir a acontecer te impeça de fazer o que te dá prazer e te preenche.

Pensa lá bem, o que é o medo?

Há uns tempos li uma excelente definição da palavra medo (em Inglês): F.E.A.R.

False Evidence Appearing Real

Normalmente o medo não passa de uma falsa evidência criada pela tua mente. Porque é que a tua mente a criou? Porque hà uns milhares de anos atrás a tua sobrevivência dependia quase a 100% das tuas emoções, mais concretamente da emoção medo. Os nossos antepassados que andavam no meio do mato precisavam de um sistema rápido e eficaz para que, ao mínimo sinal de que a sua sobrevivência estava em causa, o seu corpo os avisasse e ajudasse a sair dali o mais rápido possível. Se eles se pusessem a pensar “Hmmm...que estranho...acho que ouvi um som de algo a aproximar-se daqui” e não reagissem imediatamente através do medo provavelmente acabavam a ser o jantar de algum predador.

Hoje em dia as coisas não são bem assim.

Á partida tu não vais na rua e aparece um leopardo detrás de um Citroen Saxo...
Esse medo que tanto ajudou a sobreviver os teus antepassados, está obsoleto.
Pensa bem nas últimas 10 vezes que sentis-te medo. Algum desses medos se tornou realidade?

Provavelmente não.

Na verdade, hoje em dia causa mais estragos do que traz benefícios. As pessoas temem tudo e mais um par de botas. Tememos até situações totalmente inofensivas e fazemos grandes filmes de detalhes sem qualquer importância.

Então o que é o medo?

Uma emoção.

Nice and simple.

O nosso cérebro é algo absolutamente incrível mas ele precisa de tempo para se adaptar aos tempos. Enquanto isso não acontece a sua boa vontade só atrapalha.
Há 100 mil anos atrás era extremamente útil o nosso cérebro emotivo não precisar de experienciar algo para decidir ter medo ou não. Ele lançava uma imagem na nossa mente de um predador por exemplo e nós podíamos fugir como se o tivéssemos realmente visto quando na verdade até podia ter sido um simples esquilo.

Naqueles tempos não importava muito se era um esquilo ou um leão. A enorme probabilidade de poder ser um leão dava-me justificações mais que suficientes para fugir sem precisar de confirmar.

Hoje em dia isso não faz tanto sentido porque se antes isso salvava a minha vida agora salva mais vezes o meu ego que outra coisa qualquer.

Já o disse num post anterior e repito: Se queres ter sucesso na tua vida profissional e nas tuas relações íntimas tens de controlar o medo (emoção). Tens de parar de dar importância a imagens mentais negativas e despropositadas, tens de sair da tua cabeça e viver o momento.

Em suma, tens de confirmar se é realmente um leão ou apenas um pequeno esquilo.

É claro que se estivermos mesmo a falar literalmente não é boa ideia confirmar, ok? :)

Fixe.

Então como é que ultrapassamos o medo de coisas inofensivas?

Talvez não seja a resposta que queiras ouvir mas a maneira mais eficaz de ultrapassar o medo é...fazer o que te mete medo.

Tens um medo paralisante de interagir com desconhecidas? Faz um favor a ti próprio e reserva um dia inteiro só para interagir com pessoas que não conheces de lado nenhum. Feias, bonitas, velhas, novas, altas, baixas, medrosas, corajosas e com cara de poucos ou muitos amigos. Não importa.

Continuas com algum receio? Amanhã faz exactamente o mesmo. 

Não estás a gostar muito da sugestão? Isso é porque tens medo. E como já vimos, esse medo só está na tua cabeça, não existe na realidade. Como é que eu sei que só existe na tua cabeça? Porque eu falo com tudo o que mexe e nunca ninguém ligou o 112 nessas alturas.

Eu também sou um gajo simpático vá  :)

Mas pensa bem, se tens medo de algo tão inofensivo como falar com uma pessoa como esperas conseguir ter uma relação de intimidade? Como esperas chegar ao cimo de uma escada se não tens coragem de subir o 1º degrau?

Vai por mim, ao fim de uns tempos a interagir com toda a gente, vais rir-te do medo que te paralizava. (Isto é...se não agires como um gandulo)

Ponho as minhas mãos no fogo em como vai ser assim porque sei que falar com pessoas não representa real perigo físico para ninguém. Portanto a única maneira desta técnica não resultar é tu não seres suficientemente persistente.

Quando fazes o que te mete medo e vês que sobrevives-te sem mazelas estás a programar o teu cérebro obsoleto com nova informação. Deixas de sentir medo porque provas-te a ti próprio que não há razão para isso. Deixas de sentir medo porque as imagens negativas que são lançadas na tua cabeça antes de agires contradizem o que depois na realidade acontece.

Ao fim de uns tempos o teu cérebro ganha juízo e deixa de te chatear com imagens apocalípticas e irreais do que pode correr mal e começam a aparecer-te imagens espontâneas do que pode correr BEM.

Aqui dá-se um importante "click". A tua mente deixa de ser dominada pelo medo e passa a ser dominada pela alegria e o optimismo.

Se a tua mente, construtora da tua realidade, passa a ser dominada pela força do amor a tua realidade será totalmente diferente!

Capixe?
Portanto, ter medo é porreiro quando vives numa selva perdida na Amazónia rodeada de animais selvagens sem lei mas não se vives em sociedade.

Conclusão:

Queres uma fórmula infalível para ultrapassar o medo?

1º Admite que tens medo.
Não te armes em super-herói que não tem medo de nada, toda a gente teme porque toda a gente tem um cérebro límbico. Se não admites que tens um problema nunca farás nada para o resolver.

2º Decide que vais fazer O QUE FOR PRECISO para resolver esse problema.
Mentaliza-te que precisas de agir, de fazer algo em relação a isso.

3º Age!
Mexe o rabo. Interage com as pessoas e sê persistente.

A persistência é favorável.


Não temas viver a vida, acredita que há coisas muito mais interessantes para gastares a tua energia...
David Veríssimo
planeta.marte@portugalmail.pt ou planeta.venus@portugalmail.pt

“Conquistar o medo é o começo da riqueza”. Bertrand Russell 


4 comentários:

Ana disse...

David....sim Sr. muito bem!tou surpreendida.....!?Não sabia que escrevias no mundo da blogoesfera.
Bem afinal acho que a cuca ou o papão existem mesmo....que belo reconforto dp de ser acabada de lançar aos "lobos"...acho que eles existem mesmo,pelo menos um deles...se não fosse assim não tava ainda agr a tremer por todo o lado e a chamar-me de nomes...("ana não prestas pa nada nem sequer pa dar simples informações..")...pois é assim mesmo que me sinto....mas amanha vou tentar fugir da cuca ou do papão porque não quero mesmo encontrá-los....NAÕ QUERO TER MEDO E CONSEGUIR ATENDER COMO DEVE DE SER AS CHAMADAS..... BEM VOU TENTAR...
Continua a "posttar"(percebeste, n percebeste?)
Beijokas

Anokas(ana gonçalves)

David Veríssimo disse...

Nesse caso espero que tenha sido uma agradável surpresa :)


Ana, sabes como é que eu sei que a cuca não existe senão na tua cabeça?

Porque eu passei precisamente pelo mesmo e estou tranquilo.

Sabes como é que eu sei que tu não és uma inútil?

Porque não é isso que eu vejo...


A única forma de ultrapassares o medo é seres persistente logo, a única forma de te manteres amedrontada e a sentir como uma inútil é seres desistente.

Faz sentido?

Se deres o teu melhor para cumprir a tua função e daqui a 2 meses ainda te sentires assim, eu admito publicamente que todas as minhas noções de medo estão erradas.

Deal? :)


Beijos...

Até amanhã

Ana disse...

ok we have a deal....

Brigada pela força e tamos todos no mesmo barco,né?!mas há pessoas que "já não sentem enjoos e outras k desatam a vomitar com a ondulação" eu faço parte das k vomitam mas vou fazer td por td para nao vomitar!ahah:-)

beijokas
ANOKAS

David Veríssimo disse...

That's the spirit!

Estamos todos no mesmo barco e neste barco não há os enjoadinhos e os desenjoadinhos, neste barco cada um escolhe o que quer ser.

Tu fazes parte do grupo que ESCOLHERES fazer parte e não daquele em que achas que estás automaticamente inserida.

Não é o teu passado que define o teu futuro, é o teu presente e as escolhas que decides fazer nele.

E vivam as as DR'S com falhas crónicas na linha 27! :)

YEAH!