quarta-feira, 3 de junho de 2009

A verdade não dita e a responsabilidade não assumida


Desta vez vou entrar mesmo à bruta: Tudo aquilo que está na tua vida, seja bom ou mau, é culpa tua.

Acabei de perder 46 leitores assíduos… :)

Ok, mas deixa-me dizer isto novamente: TUDO aquilo que está na tua vida FOSTE TU que CRIAS-TE e que trouxeste para ela.

Eu já nem vou falar das coisas óbvias que podes estar a pensar como por exemplo saberes que tens um exame importante determinado dia, no dia antes vais para a borga com os amigos e no dia do teste a coisa corre-te realmente mal e chumbas de ano. Aquilo que quero focalizar é mais profundo...

Mas vamos por partes.

Aqui há uns anos dei por mim a ver uns desenhos animados quaisqueres em que um cavalo dizia a uma lebre (salvo erro...) que ia percorrer milhares de quilómetros só para encontrar algo importante para ele que a lebre lhe tinha dito que lá estava. A lebre não precisou de jurar, ela não precisou de convencer o cavalo, ela não precisou de fazer o pino, ela simplesmente...disse. E o cavalo tomou a palavra dela sem hesitações. A ouvir a conversa estava um Ser humano que, cheio de boa vontade, foi avisar o cavalo que a lebre tinha grande interesse em que ele fosse embora por muito tempo. Disse-lhe baixinho ao ouvido que a lebre estaria certamente a...mentir. Aí o cavalo ficou um pouco surpreso.

-“Mentir? O que significa ‘mentir’?” Perguntou ele.

-“Bem, mentir é quando alguém diz uma coisa que não é verdade.”

-“Mas...mas...não entendo...como pode não ser verdade se a lebre me disse que era?”

-“Sabes, ás vezes as pessoas mentem porque têm interesses nisso...”

-“Ah! Que bom!”

-“Que bom?!? Como assim cavalo?”

-“Que bom que eu e a lebre não somos pessoas.” O homem manteve-se estático enquanto o cavalo galopou alegremente pelo campo, de encontro aquilo que ele tinha a certeza que ia lá estar...

Diz-me uma coisa, já alguma vez te puseste a pensar como seria o mundo se ninguém mentisse? Já pensas-te como seria se ninguém contivesse as palavras e pura e simplesmente dissesse o que pensava sem qualquer filtro? Fosse franco e honesto. Com toda a gente. Em qualquer circunstância. Com interesses ou sem interesses. Em qualquer dia da semana. A qualquer hora do dia. SEMPRE.

Já?

Eu também.

E sinceramente não consigo ver que mal tão grande pudesse vir ao mundo se todo o mundo dissesse sempre a verdade...não vejo que horripilante pesadelo as pessoas vêm na verdade para a temerem tanto.

Por outro lado se penso em todo o mal que a mentira já trouxe e continua a trazer para a vida das pessoas fico um pouco preocupado com a nossa capacidade de julgamento.

Quer dizer, algo que trás tanto sofrimento, mortes, problemas, guerras e o diabo a sete ao mundo é visto como uma espécie de “salvação” para os pequenos problemas das nossas vidas e tem inclusivamente direito a um dia do ano para...se festejar a mentira?...

A verdade, por seu lado, é utilizado por meia dúzia de inadaptados.

O nosso amigo ego (Ver post “A teoria do cérebro Triúnico”) acha-se um espertalhão e conseguiu convencer a humanidade que é preferível mentir e manipular do que dizer a verdade e ser radicalmente honesto com as pessoas. O ego impede as pessoas de ver uma coisa incrivelmente simples e incrivelmente lógica, que a história se tem encarregado de provar vezes sem conta: Mentir é mau. Dizer a verdade é bom. 

É algo realmente simples de se dizer mas pelos vistos muito complicado de se fazer. As pessoas vivem convencidas que se querem chegar a algum lado têm de mentir, passar por cima das outras pessoas e basicamente fazer o que for preciso para levarem a sua avante. Quem não conhece a famosa frase “Good guys finish last”?

Isto é, pura e simplesmente, estúpido.

Mentir é dar um tiro no pé com um lança-rockets.

Mentir é um cancro que tu alimentas e que depois te surpreendes que te mate.

Mentir é uma maneira infantil de fugir à responsabilidade pelo que acontece na tua vida.

Para evitar os aborrecimentos e a coragem que é preciso ter para dizer a verdade, a grande maioria de nós mantém-se adolescente até aos 85 anos.

A mentira é a maior fraude do ser humano. É uma espécie de cinema em que só se abre os olhos no intervalo.

Por falar em cinema, já viste o filme “O Senhor dos Anéis”? Estás a ver o Smeagol e o seu Precious? Quando o usou pela primeira vez foi um pouco estranho e assustador mas rapidamente começou a gostar da sensação de ficar invisível e esconder as suas atitudes dos outros. Começou a gostar de poder fazer o que quisesse sem ninguém saber. O problema é que precisas de muita energia quando tentas mostrar o que não és e um dia quando te olhares ao espelho não vais reconhecer aquela pessoa fraca e amargurada que ali está reflectida. A mentira faz à pessoa que a usa a mesma coisa que o anel fez ao Smeagol. Ela cria habituação. Ela transforma-te. Ela consome-te até não restar nada de ti que valha a pena salvar.

E sim, se fores sério e honesto com as pessoas muitas delas vão aproveitar-se disso. Esse é um problema delas que não te diz respeito. Segue o teu caminho de coragem sem hesitar.

Atenção, não estou a dizer que tens de ser inocente e deixar que as pessoas pisem em cima de ti, estou a dizer que não precisas de mentir para ganhar algo que provavelmente não precisas como pensas ou para evitar algo que provavelmente não é mau como pensas.

Digamos que, por exemplo, estás numa loja e uma mulher pede a tua opinião sobre um vestido que tu achavas que era o cortinado de uma janela da loja. Experimenta dizer calmamente “Senhora, esse vestido é horrível e fica-lhe muito mal”. A pessoa pode ficar chocada? Pode. Ela pode chamar-te ordinário e mal-educado? Claro que sim. Mas…ela pediu a tua opinião certo? Não pediu um elogio nem pediu que não discordasses dela, ela pediu-te o favor de lhe dizeres o que pensas e tu fizeste o favor de lhe dar exactamente o que ela pediu. Se ela não sabe o que quer, esse já é um problema dela.

Seja como for, muitas pessoas vão agradecer-te por teres sido sincero com elas. Muitas vão pensar mais tarde que tiveram sorte em encontrar alguém que teve a coragem de dizer o que pensava e assim impedi-las de comprar um cortinado de uma qualquer loja de ferragens.

Habituamo-nos a dizer estas mentiras porque no processo de crescimento vamos ficando aprisionados na nossa mente e se não conseguimos encontrar uma saída de lá, geralmente isso acaba por nos matar. (Mais de metade das pessoas do planeta morre por consequência DIRECTA das suas acções e escolhas)

Um senhor chamado Fritz Perls definiu mesmo 3 tipos de mentira: A “chickenshit” a “bullshit” e a “elephantshit”.

Chickenshit são os cumprimentos usuais que dizemos quando encontramos alguém conhecido:

-“Olá como estás?”

-“Bem obrigado e tu?”

Normalmente isto é uma mentirinha. Na verdade não temos genuíno interesse em saber como ele está, perguntámos porque é algo que nos habituámos a fazer de forma automática e fazemos sempre mais ou menos o mesmo com toda a gente.

Bullshit são aquelas conversas que temos só para não estarmos calados e para não lidarmos com a tensão que se cria se o fizermos. São generalização sem grande sentido. A bullshit aparece muito quando duas pessoas do mesmo prédio se encontram no elevador por exemplo:

-“Pois é...aaaa...este tempo anda de todo...tá um calor terrível não acha vizinho?”

-“Pois...também cá faz falta...”

-“É verdade, é verdade...mas acho que estão a dar chuva para amanhã!”

-“A sério? Olhe que bem cá faz falta uma chuvinha de vez em quando…”

Elephantshit são verdadeiras conversas da treta. São igualmente inócuas e sem sentido mas com a diferença de serem bastante mais elaboradas e muitas vezes ditas de forma emocional:

(Emocional)

-“Xiiii...viste a roubalheira que foi ontem com o Benfica? Parece impossível pá, os árbitros estão todos comprados!”

-“Cambada…já há duas jornadas o Anacleto Maurício foi ceifado na área mesmo em frente ao árbitro e o gajo manda seguir! Cabrão de merda...”

-“Isto era um gajo por uma bomba na cabine daqueles filhos da puta!”

(Racional)

-“A conjuntura socioeconómica do país, está a atravessar um período de grande instabilidade devido a factores externos intrínsecos que, a não serem controlados pelas autoridades alfandegárias, trarão mais contrariedades devido a bla bla bla bla...”

Isto é coisa para te por a dormir mais depressa que duas caixa de comprimidos para as insónias :)

Mas é realmente engraçado que as pessoas mentem sem pensar muito no assunto.

Há dias vi um conhecido num bar. Cumprimentou-me, conversámos e bebemos um copo. Na hora de pagar ele insiste em tomar conta da despesa. Pagou com uma nota de 5€ e a rapariga do bar devolveu-lhe uma nota de 5€ e alguns trocos e continuou, atarefada, a atender clientes. Esse rapaz olhou para o troco, sorriu e guardou o dinheiro na carteira enquanto me piscava o olho e se despedia.

O que é que se passou aqui? Talvez não tenha sido um acto assim tão condenável. As bebidas nos bares são absurdamente caras e também não foi agora por 5€ que o bar foi à falência...certo? Talvez não seja assim tão simples. É que, quando fazes isto, estás a dizer que a tua integridade vale a incrível soma de 5€ (ou menos). Estás a dizer que estás disposto a ser vigarista para ganhar 5€.

Mas...agora impõem-se algumas perguntas pertinentes: E se fossem 8.30€? E se fossem 50€? E 100€? E 1.000.000€? O que farias? Quanto custa a tua integridade?

Bem, eu não sei quanto a ti mas a minha honra e seriedade não têm preço. A minha verdade não está à venda. Eu assumo a responsabilidade da minha vida dizendo a verdade.

Muita gente queixa-se. Dizem ser uns desgraçados e uns azarados. Normalmente essas pessoas têm algo em comum: Queixam-se muito e mexem-se pouco.

Tomar a responsabilidade significa que deixámos de culpar circunstâncias externas, outras pessoas ou acontecimentos passados pelo que acontece na nossa vida.

Muitas pessoas queixam-se do stress que passam nos dias de hoje, mas o stress não é uma característica da vida ou dos tempos, é uma característica das pessoas. Se assim não fosse todos nos sentiríamos stressados de igual forma e, obviamente, não é isso que acontece. É que o stress não provém do ambiente mas sim da mente do individuo sob stress. Ainda assim, a sua desculpa é “a vida acelerada dos dias de hoje”.

Muitas pessoas com 40, 50, 60 anos e mais, queixam-se de não saber mexer em computadores e ir à internet. Nunca as vi tirar um curso e tentar aprender. A sua desculpa é “a idade”.

Muitas pessoas nascem com problemas físicos ou têm acidentes e queixam-se de não terem amigos ou que as pessoas olham para elas de forma esquisita. Nunca as vi serem elas as primeiras a não dar importância à sua condição. A sua desculpa é “a incapacidade”.

Muitas pessoas têm o sonho de ser cantoras, possuir uma loja de roupa ou ir à Índia. Nunca as vi arriscar. A sua desculpa é que “a vida não permite”.

Situações diferentes com diagnóstico igual: Incapacidade para assumir a responsabilidade pelo que acontece na sua vida.

E tu? Qual é a tua desculpa?

Não te esqueças que só no dia que decidires dizer a verdade e ser responsavelmente verdadeiro vais conseguir desenhar o teu futuro como um artista e não como uma vítima. Só nesse dia vais tomar as rédeas do teu destino e saltar da plateia para começares a actuar no filme da tua vida.

Sê tu próprio mas certifica-te que é a melhor parte de ti:

David Veríssimo

planeta.marte@portugalmail.pt ou planeta.venus@portugalmail.pt

1 comentário:

Pedro Ribeiro disse...

Muito bom este post.
Por vezes é díficil dizer a verdade, porque magoa demasiado o ego e a nossa falsa-imagem.
Mas é certo que vale a pena seguir o caminho da verdade.

Obrigado, abraço.